06/12/10

Soneto de Amor




 Não me peças palavras, nem baladas, 
 Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
 Deixa cair as pálpebras pesadas,
 E entre os seios me apertes sem receio.

 Na tua boca sob a minha, ao meio,
 Nossas línguas se busquem, desvairadas...
 E que os meus flancos nus vibrem no enleio
 Das tuas pernas ágeis e delgadas.

 E em duas bocas uma língua-unidos, 
 Nós trocaremos beijos e gemidos,
 Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois...abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada... 
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

                                                        
José Régio



04/12/10

Adoração






Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;

Contemplei-o de longe
mudo e quedo,
Como quem volta de áspero degredo


E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!
Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual;
Suave como lâmpada sagrada,

Bem-vindo como a luz da madrugada
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!
Vi esse corpo de ave,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a Lua


Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!
Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;


Porque espalha o teu rosto
uma luz santa,
Uma luz que me prende
e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!


Tremo apenas pressinto
A tua aparição,
E se me aproximasse mais,
bastava
Pôr os olhos nos teus,
ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
É uma adoração!


Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!

João de Deus



03/12/10

A Felicidade Realista





A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote

louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguer, a comida e o cinema:
queremos a piscina, e uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor! não basta termos alguém com quem
podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando.
Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo.
Queremos estar literalmente apaixonados, queremos ser surpreendidos
por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas
de segunda a domingo,queremos ser felizes assim, e não de outro jeito. 
É o que dá ver tanta televisão.


Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você
pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um
parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente
quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção.
Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se
sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco
que vai tentar segurar sua vida buscando coisas que saiam de graça,
como um pouco de humor,um pouco de fé e um pouco de criatividade.


Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato,
amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza,
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingénuas desta tal competitividade.


Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as
regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.
Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a
felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir
embora por não perceber sua simplicidade.
Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca
inquietude no nosso coração.
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade...


Martha Medeiros


27/11/10


De Profundis



Encontro, algures na minha natureza, alguma coisa que me diz que não há nada no mundo que seja desprovido de sentido, e muito menos o sofrimento.
Essa qualquer coisa, escondida no mais fundo de mim, como um tesouro num campo,é a humildade.
É a última coisa que me resta, e a melhor.
Ela veio-me de dentro de mim mesmo e sei que veio no bom momento.
Não teria podido vir mais cedo nem mais tarde.
Se alguém me tivesse falada dela, tê-la-ia rejeitado.
Se ma tivessem oferecido, tê-la-ia rejeitado.
É a única coisa que contém os elementos da vida, de uma vida nova.
Entre todas as coisas ela é a mais estranha.
É somente quando perdemos todas as coisas que sabemos que a possuímos.


Oscar Wilde

22/11/10

É assim que eu te quero amor...










Assim amor, é que eu gosto de ti, tal como te vestes e como arranjas
os cabelos, e como a tua boca sorri, ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras, é assim que te quero, amada.
Ao pão não peço que me ensine, mas antes que não me falte
em cada dia que passa.

Da luz nada sei, nem donde vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie, e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me, e assim tu pão e luz e sombra és.

Chegastes à minha vida com o que trazias,
feita de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.

Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

27/10/10




POESIA


Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.


Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.


E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.


Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?




( Fernando Pessoa )




Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)