05/04/15

Ausencia



Por mais tarde que seja,
estou vendo a alvorada,
em cravos restituída
e em safiras molhada.

Por Tão certa é a minha vida
que em cego mar escuro
encontro o que procuro
e não me atrevo a nada.

De esplendores ferida,
fecho os olhos. Que ausente
quero ser. Tão distante
que eu mesma não me veja
- à morte indiferente,
para qualquer instante.


 Cecília Meireles

Ar Livre



A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madre-pérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.


Cecília Meireles

31/03/15

O Anel



Dá-me um anel; mas que seja

Como o anel em que cingida

Tem gemido toda a minha vida.

Dá-me um anel; mas de ferro,

Negro, bem negro, da cor

Desta minha acerba dor,

Deste meu negro desterro!



Dá-me um anel; mas de ferro...

Sempre comigo hei-de tê-lo;

Há-de ser o negro elo,

Que me prenda à sepultura.

Quero-o negro...seja o estigma,

que decifre o escuro enigma,

Duma grande desventura.



Dá-me um anel; mas de ferro,

Que resista mais que os ossos

Dum cadáver aos destroços

Do roaz verme do pó.

Entre as cinzas alvacentas,

como espólio das tormentas

Apareça o ferro só.



E o teu nome impresso nele,

Falará dum grande amor,

Nutrido em ânsias de dor,

Pelo fel da sociedade...

Que teu nome nele escrito,

Nesse padrão infinito,

Vá comigo à Eternidade.

Camilo Castelo Branco

25/03/15

SE...




Se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer,
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso,
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo,
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí, vá ficando por aí,
eu vou ficando por aqui,
evitando, desviando,
sempre pensando,
se por acaso a gente se cruzasse


Alice Ruiz

24/03/15

                                                               
                                                             Afrodite Formosa


Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão
corpo.
Não és mística, não exacerbas, não
angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...


Herberto Helder

31/12/14

                                                 O máximo :-) Esperto!!!
                                Desejos de um prospero Ano 2015!!!
                                Com muita saúde,
                                Paz, bastante amor, trabalho, e sucessos.