18/02/16

Deixa que os meus olhos se fechem...



Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus…
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto
Envolve-me nos teus braços e, cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço, do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito
Deixa que os meus olhos durmam
nos teus…
Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti
Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos…


Albano Martins

Se fosses....





Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


António Botto


01/02/16

Juventude



A juventude é feliz porque tem a capacidade de ver a beleza. 
Qualquer pessoa que mantém a capacidade de ver a beleza nunca envelhece.


Franz kafka

11/01/16

A palavra impossível





Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim 
A vida que não se troca por palavras. 
Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
As vozes que só em mim são verdadeiras. 
Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
A impossível palavra da verdade. 

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce 
-A Palavra que nunca se profere. 


Adolfo Casais Monteiro

A tua morte em mim



( excerto) À memória de Raquel Moacir 

A tua morte é sempre nova em mim. 
Não amadurece. 
Não tem fim. 
Se ergo os olhos dum livro, 
de repente tu morreste. 
Acordo, e tu morreste. 
Sempre, cada dia, 
cada instante, 
a tua morte é nova em mim, 
sempre impossível. 

E assim, até à noite final irás
morrendo a cada instante da vida 
que ficou fingindo vida. 
Redescubro a tua morte 
como outros redescobrem o amor, 
porque em cada lugar, 
cada momento, 
tu estás viva. 

Viverei até à hora derradeira a tua morte. 
Aos goles, lentos goles. 
Como se fosse cada vez um veneno novo. 
Não é tanto a saudade que dói, 
mas o remorso. 
O remorso de todo o perdido em nossa vida, 
coisas de antes e depois, 
coisas de nunca, 
palavras mudas para sempre, 
um gesto que sem remédio jamais teve destino, 
o olhar que procura e nunca tem resposta. 

O único presente verdadeiro é teres partido.


Adolfo Casais Monteiro

12/12/15

Madagascar


Madagáscar é uma gota de licor
meteorito ou anêmona, vagando 
por minhas veias e artérias,
formiga-me, é um grito repetido
por inúmeros ecos no meu arcabuço, 
é um sonho erodido de tão sonhado.

Os búzios, se os ouço, trazem-me
apelos do Índico, vestígios do sopro
das sereias: há-as, creiam,
só Ulisses e Vasco da Gama resistiram
por surdos que eram à linhagem
das aromáticas consoantes douradas.


Fernando Ferreira de Loanda

Ano Novo




Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)
                                                   

                                                      Gullar Ferreira.