17/04/16

O Nosso Livro




Livro do meu amor, 
do teu amor, Livro do nosso amor, 
do nosso peito... 
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito, 
Como se fossem pétalas em flor. 
Olha que eu outro já não sei compor 
Mais santamente triste, mais perfeito. 
Não esfolhes os lírios com que é feito 
Que outros não tenho em meu jardim de dor! 
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu! 
Num sorriso tu dizes e digo eu: 
Versos só nossos mas que lindos sois! 
Ah! meu Amor! 
Mas quanta, quanta gente Dirá, 
fechando o livro docemente: 
«Versos só nossos, só de nós os dois!...» 

Florbela Espanca

Creio nos anjos que andam pelo mundo


creio nos anjos que andam pelo mundo, 
creio na deusa com olhos de diamantes, 
creio em amores lunares com piano ao fundo, 
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes; 
creio num engenho que falta mais fecundo de harmonizar 
as partes dissonantes, creio que tudo é eterno num segundo, 
creio num céu futuro que houve dantes, 
creio nos deuses de um astral mais puro, 
na flor humilde que se encosta ao muro, 
creio na carne que enfeitiça o além, 
creio no incrível, 
nas coisas assombrosas, 
na ocupação do mundo pelas rosas, 
creio que o amor tem asas de ouro. amém. 


Natália Correia 

18/03/16

Pérola solta


Sem que eu a esperasse, 
Rolou aquela lágrima 
No frio e na aridez da minha face. 
Rolou devagarinho..., 
Até à minha boca abriu caminho. 
Sede! o que eu tenho é sede! 
Recolhi-a nos lábios e bebi-a. 
Como numa parede 
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou, 
Na boca me cantou, 
Breve como essa lágrima, 
Esta breve elegia. 


José Régio

13/03/16

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem para te dizer! 
São talhados em mármore de Paros 
Cinzelados por mim para te oferecer. 
 
Têm dolência de veludos caros, 
São como sedas pálidas a arder... 
Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que foram feitos para te endoidecer! 
 
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda... 
Que a boca da mulher é sempre linda 
Se dentro guarda um verso que não diz! 
 
Amo-te tanto! E nunca te beijei... 
 nesse beijo, Amor, que eu te não dei 
Guardo os versos mais lindos que te fiz! 


                              Florbela Espanca, Livro de Mágoas (1919)

20/02/16

Coração sem imagens



Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas 
e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raulde Carvalho

18/02/16

Deixa que os meus olhos se fechem...



Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus…
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto
Envolve-me nos teus braços e, cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço, do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito
Deixa que os meus olhos durmam
nos teus…
Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti
Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos…


Albano Martins

Se fosses....





Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


António Botto