26/01/17

GIGANTES E ANÕES




Donde vimos para onde vamos
o que somos pouco importa
importa se na passagem
algo de bom semeamos
durante a nossa viagem


Escondemos sentimentos
guardamos dentro de nós
alguns sonhos pertinentes
que se fossemos diferentes
ganhariam corpo e voz


Julgamos ser importantes
mas em tantas ocasiões
somos medrosos distantes
deixamos de ser gigantes
somos apenas anões


Precisamos uns dos outros
todos nós somos iguais
neste mundo de loucos
mesmo juntos somos poucos
e o mundo grande demais

Alice Queiroz

A Beleza é uma Construção Cerebral.




A beleza consome e dá de consumo, 
vem de um lado que ninguém conhece, 
constrói-se com os minutos, com o tempo de degustação,
há pessoas que foram ficando bonitas pela repetição, 
vamo-las vendo e vamos percebendo traços novos, 
traços diferentes, como se o rosto tivesse vários rostos em si 
uma matrioska estética, temos vários rostos no nosso, 
ou vários olhares no que olhamos,
a beleza é um processo de inteligência 
uma construção cerebral.

Pedro Freitas Chagas

18/11/16

Lágrimas ocultas


     Florbela Espanca


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Amor, que o gesto humano na alma escreve



Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.

Luis Vaz de Camões

07/11/16

Minha Canção






Minha canção te envolverá com sua música,

como os abraços sublimes do amor.

Tocará o teu rosto como um beijo de graças.



Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.

Minha canção será como asas para os teus sonhos

e elevará teu coração até o infinito.



Quando a noite escurecer o teu caminho,

minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel.

Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas.



Quando minha voz se calar para sempre,

minha canção te seguirá em teus pensamentos.



 Tagore

14/06/16

Anjo És...

Anjo és tu, que esse poder 

Jamais o teve mulher, 
Jamais o há-de ter em mim. 
Anjo és, que me domina 
Teu ser o meu ser sem fim; 
Minha razão insolente 
Ao teu capricho se inclina, 
E minha alma forte, ardente, 
Que nenhum jugo respeita, 
Covarde-mente sujeita 
Anda humilde a teu poder. 
Anjo és tu, não és mulher. 


Anjo és. Mas que anjo és tu? 
Em tua fronte anuviada 
Não vejo a c'roa nevada 
Das alvas rosas do céu. 
Em teu seio ardente e nu 
Não vejo ondear o véu 
Com que o sôfrego pudor 
Vela os mistérios d'amor. 
Teus olhos têm negra a cor, 
Cor de noite sem estrela; 
A chama é vivaz e é bela, 
Mas luz não têm. - Que anjo és tu? 
Em nome de quem vieste? 
Paz ou guerra me trouxeste 
De Jeová ou Belzebu? 



Não respondes - e em teus braços 
Com frenéticos abraços 
Me tens apertado, estreito!... 
Isto que me cai no peito 
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me... 
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, 
Dou-me a ti, anjo maldito, 
Que este ardor que me devora 
É já fogo de precito, 
Fogo eterno, que em má hora 
Trouxeste de lá... De donde? 
Em que mistérios se esconde 
Teu fatal, estranho ser! 
Anjo és tu ou és mulher? 



Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'