06/06/18

ILHA



Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David de Jesus Mourão-Ferreira

PENÉLOPE


Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.


David de Jesus Mourão-Ferreira

Ternura



Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada... 

Olho a roupa no chão: que tempestade! 
Há restos de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade 
onde uma tempestade sobreveio... 

Começas a vestir-te, lentamente, 
e é ternura também que vou vestindo, 
para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo... 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós 
a despimos assim que estamos sós! 

David Mourão-Ferreira,

21/05/18

Conheço esse Sentimento


Conheço esse sentimento 
que é como a cerejeira 
quando está carregada de frutos: 
excessivo peso para os ramos da alma. 

Conheço esse sentimento 
que é o da orla da praia 
lambida pela espuma da maré: 
quando o mar se retira 
as conchas são pequenas saudades 
que doem no coração da areia. 

Conheço esse sentimento 
que é o dos cabelos do salgueiro 
revoltos pelas mãos ágeis da tempestade: 
na hora quieta do amanhecer 
pendem-lhe tristemente os braços 
vazios do amado corpo do vento. 

Conheço esse sentimento 
que passa nos teus olhos e nos meus 
quando de mãos dadas 
ouvimos o Requiem de Mozart 
ou visitamos a nave de Alcobaça. 

Pedro e Inês 
a praia e a maré 
o salgueiro e o vento 
a verdade e o sonho 
o amor e a morte 
o pó das cerejeiras 
tu. 
e eu. 

Rosa Lobato Faria

Beijo a Beijo





E de novo a armadilha dos abraços. 
E de novo o enredo das delícias. 
O rouco da garganta, os pés descalços 
a pele alucinada de carícias. 
As preces, os segredos, as risadas 
no altar esplendoroso das ofertas. 
De novo beijo a beijo as madrugadas 
de novo seio a seio as descobertas. 
Alcandorada no teu corpo imenso 
teço um colar de gritos e silêncios 
a ecoar no som dos precipícios. 
E tudo o que me dás eu te devolvo. 
E fazemos de novo, sempre novo 
o amor total dos deuses e dos bichos. 

Rosa Lobato Faria,

18/05/18

Quando Tu Choras





Quando tu choras, meu amor, teu rosto
Brilha formoso com mais doce encanto,
E as leves sombras de infantil desgosto
Tornam mais belo o cristalino pranto.



Oh! nessa idade da paixão lasciva

Como o prazer, é o chorar preciso:
Mas breve passa - qual a chuva estiva -
E quase ao pranto se mistura o riso.




É doce o pranto de gentil donzela,

É sempre belo quando a virgem chora:
- Semelha a rosa pudibunda e bela
Toda banhada do orvalhar da aurora.




Da noite o pranto, que tão pouco dura,

Brilha nas folhas como um rir celeste,
E a mesma gota transparente e pura
Treme na relva que a campina veste.




Depois o sol, como sultão brilhante,

De luz inunda o seu gentil serralho,
E às flores todas - tão feliz amante -
Cioso sorve o matutino orvalho.




Assim, se choras, inda és mais formosa,

Brilha teu rosto com mais doce encanto:
- Serei o sol e tu serás a rosa...
Chora, meu anjo, - beberei teu pranto!

Casimiro de Abreu



14/05/18

Amor



Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu´alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d´esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo