14/06/16

Anjo És...

Anjo és tu, que esse poder 

Jamais o teve mulher, 
Jamais o há-de ter em mim. 
Anjo és, que me domina 
Teu ser o meu ser sem fim; 
Minha razão insolente 
Ao teu capricho se inclina, 
E minha alma forte, ardente, 
Que nenhum jugo respeita, 
Covarde-mente sujeita 
Anda humilde a teu poder. 
Anjo és tu, não és mulher. 


Anjo és. Mas que anjo és tu? 
Em tua fronte anuviada 
Não vejo a c'roa nevada 
Das alvas rosas do céu. 
Em teu seio ardente e nu 
Não vejo ondear o véu 
Com que o sôfrego pudor 
Vela os mistérios d'amor. 
Teus olhos têm negra a cor, 
Cor de noite sem estrela; 
A chama é vivaz e é bela, 
Mas luz não têm. - Que anjo és tu? 
Em nome de quem vieste? 
Paz ou guerra me trouxeste 
De Jeová ou Belzebu? 



Não respondes - e em teus braços 
Com frenéticos abraços 
Me tens apertado, estreito!... 
Isto que me cai no peito 
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me... 
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, 
Dou-me a ti, anjo maldito, 
Que este ardor que me devora 
É já fogo de precito, 
Fogo eterno, que em má hora 
Trouxeste de lá... De donde? 
Em que mistérios se esconde 
Teu fatal, estranho ser! 
Anjo és tu ou és mulher? 



Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas' 



21/05/16

natureza linda!!!

Trabalho extraordinario

17/04/16

O Nosso Livro




Livro do meu amor, 
do teu amor, Livro do nosso amor, 
do nosso peito... 
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito, 
Como se fossem pétalas em flor. 
Olha que eu outro já não sei compor 
Mais santamente triste, mais perfeito. 
Não esfolhes os lírios com que é feito 
Que outros não tenho em meu jardim de dor! 
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu! 
Num sorriso tu dizes e digo eu: 
Versos só nossos mas que lindos sois! 
Ah! meu Amor! 
Mas quanta, quanta gente Dirá, 
fechando o livro docemente: 
«Versos só nossos, só de nós os dois!...» 

Florbela Espanca

Creio nos anjos que andam pelo mundo


creio nos anjos que andam pelo mundo, 
creio na deusa com olhos de diamantes, 
creio em amores lunares com piano ao fundo, 
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes; 
creio num engenho que falta mais fecundo de harmonizar 
as partes dissonantes, creio que tudo é eterno num segundo, 
creio num céu futuro que houve dantes, 
creio nos deuses de um astral mais puro, 
na flor humilde que se encosta ao muro, 
creio na carne que enfeitiça o além, 
creio no incrível, 
nas coisas assombrosas, 
na ocupação do mundo pelas rosas, 
creio que o amor tem asas de ouro. amém. 


Natália Correia 

18/03/16

Pérola solta


Sem que eu a esperasse, 
Rolou aquela lágrima 
No frio e na aridez da minha face. 
Rolou devagarinho..., 
Até à minha boca abriu caminho. 
Sede! o que eu tenho é sede! 
Recolhi-a nos lábios e bebi-a. 
Como numa parede 
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou, 
Na boca me cantou, 
Breve como essa lágrima, 
Esta breve elegia. 


José Régio

13/03/16

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem para te dizer! 
São talhados em mármore de Paros 
Cinzelados por mim para te oferecer. 
 
Têm dolência de veludos caros, 
São como sedas pálidas a arder... 
Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que foram feitos para te endoidecer! 
 
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda... 
Que a boca da mulher é sempre linda 
Se dentro guarda um verso que não diz! 
 
Amo-te tanto! E nunca te beijei... 
 nesse beijo, Amor, que eu te não dei 
Guardo os versos mais lindos que te fiz! 


                              Florbela Espanca, Livro de Mágoas (1919)

20/02/16

Coração sem imagens



Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas 
e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raulde Carvalho