11/01/16

A palavra impossível





Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim 
A vida que não se troca por palavras. 
Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
As vozes que só em mim são verdadeiras. 
Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
A impossível palavra da verdade. 

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce 
-A Palavra que nunca se profere. 


Adolfo Casais Monteiro

A tua morte em mim



( excerto) À memória de Raquel Moacir 

A tua morte é sempre nova em mim. 
Não amadurece. 
Não tem fim. 
Se ergo os olhos dum livro, 
de repente tu morreste. 
Acordo, e tu morreste. 
Sempre, cada dia, 
cada instante, 
a tua morte é nova em mim, 
sempre impossível. 

E assim, até à noite final irás
morrendo a cada instante da vida 
que ficou fingindo vida. 
Redescubro a tua morte 
como outros redescobrem o amor, 
porque em cada lugar, 
cada momento, 
tu estás viva. 

Viverei até à hora derradeira a tua morte. 
Aos goles, lentos goles. 
Como se fosse cada vez um veneno novo. 
Não é tanto a saudade que dói, 
mas o remorso. 
O remorso de todo o perdido em nossa vida, 
coisas de antes e depois, 
coisas de nunca, 
palavras mudas para sempre, 
um gesto que sem remédio jamais teve destino, 
o olhar que procura e nunca tem resposta. 

O único presente verdadeiro é teres partido.


Adolfo Casais Monteiro