06/04/15

Elegia do Amor

Lembras-te, meu amor, 

Das tardes outonais, em que íamos os dois, 
Sozinhos, passear, para fora do povo, alegre e dos casais, 
Onde só Deus pudesse ouvir-nos conversar? 
Tu levavas na mão um lírio enamorado, 
E davas-me o teu braço; 
E eu, triste, meditava na vida, em Deus, em ti... 
E, além, o sol doirado morria, conhecendo 
A noite que deixava. Harmonias astrais 
Beijavam teus ouvidos; 
Um crepúsculo terno e doce diluía, 
Na sombra, o teu perfil e os montes doloridos... 
Erravam, pelo Azul, canções do fim do dia. 
Canções que, de tão longe, o vento vagabundo 
Trazia, na memória... 
Assim o que partiu em frágil caravela, 
E andou por todo o mundo, traz, no seu coração, 
A imagem do que viu. 

Olhavas para mim, ás vezes, distraída, 
Como quem olha o mar, à tarde, dos rochedos... 
E eu ficava a sonhar, qual névoa adormecida, 
Quando o vento também dorme nos arvoredos. 
Olhavas para mim... 
Meu corpo rude e bruto vibrava, como a onda 
A alar-se em nevoeiro. olhavas, descuidada 
E triste... Ainda hoje escuto a música ideal 
Do teu olhar primeiro! Ouço bem tua voz, 
Vejo melhor teu rosto no silêncio sem fim, 
Na escuridão completa! Ouço-te em minha dor. 
Ouço-te em meu desgosto e na minha esperança 
Eterna de poeta! 
O sol morria, ao longe; E a sombra da tristeza 
Velava, com amor, nossas doridas frontes. 
Hora em que a flor medita e a pedra chora e reza, 
E desmaiam de mágoa as cristalinas fontes. 
Hora santa e perfeita, em que íamos, sozinhos, 
Felizes, através da aldeia muda e calma, 

Mãos dadas, a sonhar, ao longo dos caminhos... 
Tudo, em volta de nós, tinha um aspecto de alma. 
Tudo era sentimento, Amor e piedade. 
A folha que tombava era alma que subia... 
E, sob os nossos pés, a terra era saudade, 
A pedra comoção e o pó melancolia. 
Falavas duma estrela e deste bosque em flor; 
Dos ceguinhos sem pão, dos pobres sem um manto. 
Em cada tua palavra, havia eterna dor; 
Por isso, a tua voz me impressionava tanto! 
E punha-me a cismar que eras tão boa e pura, 
Que, muito em breve — sim! 
Te chamaria o céu! E soluçava, ao ver-te 
Alguma sombra escura, na fronte, que o luar 
Cobria, como um véu. 
A tua palidez que medo me causava! 
Teu corpo era tão fino e leve (oh meu desgosto!) 
Que eu tremia, ao sentir o vento que passava! 
Caía-me, na alma, a neve do teu rosto. 

Como eu ficava mudo e triste, sobre a terra! 
E uma vez, quando a noite amortalhava a aldeia, 
Tu gritaste, de susto, olhando para a serra: 
— Que incêndio! — E eu, a rir, 
Disse-te — É a lua cheia!... 
E sorriste também do teu engano. A lua 
Ergueu a branca fronte, acima dos pinhais, 
Tão ébrio de esplendor, tão casta e irmã da tua, 
Que eu beijei sem querer, seus raios virginais. 
E a lua, para nós, os braços estendeu. 
Uniu-nos num abraço, espiritual, profundo, 
E levou-nos assim, com ela, até ao céu 
Mas, ai, tu não voltaste e eu regressei ao mundo. 

Teixeira de Pascoaes

Encantamento


Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar 
A tua doce e angélica Figura, 
Esquecido, embebido num luar, 
Num elevo perfeito e graça pura! 

E à força de sorrir, de me encantar, 
Diante de ti, mimosa Criatura, 
Suavemente sentia-me apagar... 
E eu era sombra apenas e ternura. 

Que inocência! que aurora! que alegria! 
Tua figura de Anjo radiava! 
Sob os teus pés a terra florescia, 

E até meu próprio espírito cantava! 
Nessas horas divinas, quem diria 
A sorte que já Deus te destinava! 

Teixeira de Pascoais

05/04/15

Nudez
















Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.

Minha matéria e o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estranho,
estando e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)


Carlos Drummond de Andrade


Ausencia



Por mais tarde que seja,
estou vendo a alvorada,
em cravos restituída
e em safiras molhada.

Por Tão certa é a minha vida
que em cego mar escuro
encontro o que procuro
e não me atrevo a nada.

De esplendores ferida,
fecho os olhos. Que ausente
quero ser. Tão distante
que eu mesma não me veja
- à morte indiferente,
para qualquer instante.


 Cecília Meireles

Ar Livre



A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madre-pérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.


Cecília Meireles