27/08/11

Memórias de Infância


A Minha Queda de Bicicleta



Lembro-me que tinha aprendido a andar de bicicleta, quando um belo dia, pego nela e vou aventurar-me sózinha ainda com pouca experiência a dar as minhas voltas. Quando ao fim de um certo tempo, vejo-me a ir por um caminho que foi dar a uma acentuada descida  e a ir a uma velocidade que não consegui controlar de maneira nenhuma a dita cuja; e dou comigo esticada no chão. Foi uma queda de tal maneira, que fiz um enorme golpe num dos joelhos. A partir dessa altura, nunca mais peguei numa bicicleta, o medo de cair foi de tal forma, que ainda hoje tenho um pavor a quedas. Sempre que me lembro destas pequenas situações farto-me de rir para mim mesma, e o mais engraçado é que deixei de saber andar de bicicleta. Hoje, se eu pegar numa bicicleta terei que novamente aprender a andar, mas desta vez terei que praticar mais e mais até me sentir segura e saber controlar a máquina.

Nanda

26/08/11

A SOLIDÃO

A solidão...

Quem me tira destas quatros paredes,
Quem me tira desta solidão imensa.
Sinto uma enorme sensação de vazio e isolamento.
Não é só a falta de alguém ao nosso lado,
Mas os meus sentimentos precisam de algo novo,
Que me dê alegria, satisfação de estar dando algo de mim aos outros.
Poder sair, ver novas caras, novos sorrisos, apanhar ar!
Poder realizar alguma actividade.
Mas sobretudo, ganhar o meu sustento, a minha liberdade,
A minha estabilidade emocional, física e mental em harmonia.


Nanda


25/08/11

Quando Ela Fala...

Quando ela fala, parece
que a voz da brisa se cala;
talvez um anjo emudece
quando ela fala.

Meu coração dolorido
as suas mágoas exala,
e volta ao gozo perdido
quando ela fala.

Pudeste eu eternamente,
o lado dela, escutá-la,
ouvir sua alma inocente
quando ela fala.

Minha alma, já semimorta,
conseguira ao céu alçá-la
porque o céu abre uma porta
quando ela fala.

Machado de Assis

ABANDONO


Não digas nada, deixa apenas
as mãos entregues ao calor das minhas
e olha-me nos olhos como quando
nos fitávamos, pássaros surpresos
do próprio voo, adolescente e luminoso.

Ambos sabemos desde há muito: a vida
é uma longa paciência e não há forma
de viver ao abandono dos que amamos.

Sobrevivamos, pois, no fio dos dias
que nos restam ainda, se é que o tempo
nos favorece como dantes.
E mantenhamos as mãos coladas,
olhares fitos um no outro, meu amor.

(Torquato da Luz)


24/08/11

Pus o Meu Sonho Num Navio...


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

~Cecília Meireles~






Memórias de Infância



Um dia destes dias, estava eu no computador e de repente, veio-me á memória lembranças da minha infância.

Uma delas, que eu adorava e ainda hoje continuo a gostar, embora já não faça parte das nossas casas modernas e nos costumes domésticos, era lavar a roupa á mão num daqueles tanques antigos de cimento, que existiam nas casas. Eu era pequena, e via a minha mãe na marquise da nossa cozinha lavar a roupa á mão.

Ela esfregava e esfregava, batia a roupa na pedra, ensaboava, e tornava a bater, e a esfregar, eram gestos que se repetiam vezes sem conta até a roupa ficar bem lavada. O gosto que eu tinha de ver a minha mãe lavar a roupa daquela forma era de tal forma para mim tão agradável que a partir daquele momento iria ser uma das minhas funções favoritas lá de casa. A roupa ficava incrivelmente branca e bem lavada com o sabão azul e branco que se usava naquele tempo.

O cheirinho da roupa lavada com aquele sabão era muito bom, e mesmo depois de seca o cheirinho ficava na roupa. Era também com esse sabão azul e branco que tomávamos banho, pois dizia-se naquele tempo, que o sabão era bom para a pele, até os próprios médicos aconselhavam o uso do mesmo. E era bem verdade; claro que as coisas vão-se alterando e o sabão azul e branco de hoje, nada tem a ver com o de antigamente, completamente diferente na sua composição e cheiro. São estas pequenas lembranças mas muito significativas para mim, que me faz sentir saudades do meu tempo de criança e adolescente

Ouve, Meu Anjo...



Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
num sorriso desdenhoso;
Mas aí!, A carne do assassino
é como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
misterioso, gentil,
deu-me o seu corpo doirado
que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia…
Ele apertou-me cerrando
os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
como um perfume no ar!



~António Botto~




Na Palma da Tua Mão


E na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos,dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te.



~Vasco Gato~



Plena Mulher



Plena mulher maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas pernas?

Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

Pablo Neruda



De Todos os Cantos do Mundo


Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia Andresen

SAUDADE

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura,
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés.

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas.

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu…
que longe de ti sou fraco
 eu…
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta.

Traz
de novo, meu amor
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.


Mia Couto

21/08/11

Limites do Amor



Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.

Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:
- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.



Faz-me o Favor.



Faz-me o favor de não dizer
absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.


Mário Cesariny







Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O´Neill